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Editorial

 

A enfermagem e o paradigma de uma saúde única: rumo a uma abordagem sustentável na África

La enfermería y el paradigma de una sola salud: hacia un enfoque sostenible en África

Nursing and the one health paradigm: toward a sustainable approach in Africa

 

Ydalsys Naranjo-Hernández1* Imagen 1 https://orcid.org/0000-0002-2476-1731

 

1Doutora em Ciências de Enfermagem. Especialista de Primeiro Grau em Enfermagem Comunitária. Mestre em Medicina Bioenergética e Natural. Pesquisadora Titular da Unidade de Pesquisas Biomédicas. Professora Titular, Departamento de Enfermagem, Instituto Superior Politécnico de Bié, Angola.

 

* Autor para correspondência. E-mail: Imagen 2 idalsisn@gmail.com

 

 

Recebido: 21/11/2025

Aprovado: 25/12/2025

Publicado: 15/01/2026

 

 

Entre as doenças infecciosas emergentes, cujas altas taxas de infecção chama a atenção, muitas são de origem zoonótica, implicando consequências graves para a saúde humana. Por essa razão, em 2004, especialistas em saúde reuniram-se com o objetivo de focalizar as relações de dependência recíproca entre saúde humana, saúde animal e meio ambiente. A partir do reconhecimento dessas relações, enfatizaram a prioridade de uma abordagem interdisciplinar e internacional para lidar com essas ameaças.(1) Como resultado desse encontro, foi emitida a Declaração dos Princípios de Manhattan (Manhattan Principles),(2) contendo doze recomendações.

A declaração foi ratificada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a Organização Mundial de Saúde Animal (OMS), a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e por outras organizações internacionais. Posteriormente, sob a perspectiva de “uma só saúde”, outras reuniões de especialistas analisaram as causas da disseminação de doenças infecciosas zoonóticas.(1,3)

A abordagem de “uma só saúde” é essencial diante dos desafios sanitários globais, pois reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal e o equilíbrio dos ecossistemas.(3) Sua adoção possibilita uma visão integrada das questões de saúde, ao vincular os cuidados de saúde das pessoas com a proteção do meio ambiente. Essa perspectiva está alinhada com a Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A implementação da abordagem "Uma Só Saúde" requer o reconhecimento conceitual e ações concretas que integrem os setores da saúde, do meio ambiente e da agricultura. Na África, há a paradoxo, apesar de sua vasta biodiversidade, o continente apresenta vulnerabilidade particular à transmissão de doenças zoonóticas. Essa situação é agravada por processos como urbanização acelerada, desmatamento e migração humana.(4) Epidemias recentes, desde o Ebola até a COVID-19, evidenciam que os riscos à saúde não respeitam fronteiras ou espécies.

Nos contextos dos países africanos, a presença de enfermeiros como parte da equipe de saúde é essencial; sua participação ativa é crucial para a manutenção de programas de saúde, educação comunitária, controle de vetores e gestão ambiental.(5) A posição singular dos enfermeiros ao abordar as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde representa um apoio importante à gestão sustentável da saúde no continente. Essa perspectiva holística tem raízes no pensamento humanista de Florence Nightingale, que destacava o papel do ambiente na prevenção de doenças. Isso sustenta a ênfase atual na estreita relação entre a profissão de enfermeiro e a abordagem de “uma só saúde”.

Para consolidar a abordagem de “uma só saúde”, é fundamental promover uma formação transdisciplinar que capacite líderes em saúde ambiental, doenças zoonóticas, gestão de riscos e cooperação intersetorial. Tal formação fortaleceria as respostas a emergências sanitárias e às mudanças climáticas.(4-6)

A criação de observatórios nacionais de “Uma Só Saúde” possibilitaria antecipar riscos, coordenar políticas e otimizar os recursos disponíveis. Nesse cenário, a enfermagem contribuiria com informações essenciais sobre os determinantes locais da saúde das populações. Portanto, é fundamental que o pessoal de enfermagem desenvolva competências investigativas e de liderança, bem como se integre em redes intersetoriais de vigilância e sustentabilidade ambiental.

A formação contínua constitui uma estratégia para ampliar suas capacidades profissionais e fortalecer suas respostas às crises sanitárias e ecológicas. Assim, a enfermagem consolidar-se-ia como uma disciplina de ponte entre a ciência, as comunidades e a ética do cuidado integral.

O paradigma de “Uma Só Saúde” também representa um convite para repensar os modelos tradicionais de atenção à saúde, direcionando-os para a prevenção, a equidade e a corresponsabilidade social. Desde as comunidades rurais até os ambientes urbanos, o pessoal de enfermagem é uma peça-chave na educação em saúde, na vigilância ambiental e na gestão participativa dos recursos naturais. Essas ações, que integram conhecimentos locais e científicos, fortalecem a autonomia comunitária e a resiliência frente a desastres naturais, inseguranças alimentares ou surtos epidêmicos.

A integração do ponto de vista de “uma só saúde” na prática profissional também implica uma ética do cuidado que vincula o bem-estar humano ao do meio ambiente. Na prática, esse princípio se traduz na execução de campanhas de vacinação, na promoção de práticas agroecológicas, na educação comunitária sobre o cuidado com a higiene da água e no controle de vetores. Ações que, além disso, estão alinhadas aos valores da enfermagem: respeito, responsabilidade social e compromisso com a vida.(5-7) Cada intervenção torna-se um ato de saúde planetária, onde cuidar das pessoas também significa preservar os ecossistemas onde vivem.

A enfermagem – enquanto especialidade –, com seu enfoque centrado na pessoa e sua experiência em trabalho comunitário, pode e deve liderar a transição para modelos de saúde sustentáveis na África. A adoção do modelo de “uma só saúde” implica reconhecer que do equilíbrio do planeta depende a saúde das pessoas e que o futuro do continente africano é construído sobre a integração de ciência, natureza e comunidade. Esse paradigma representa uma oportunidade histórica para que a enfermagem consolide sua liderança na promoção da saúde global, contribuindo para fortalecer a cooperação intersetorial, a prevenção e a resiliência frente aos riscos sanitários do século XXI.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1.Vidal-Ledo MJ, Armenteros-Vera I, Aparicio-Suárez JL, Morales-Suárez I, Portuondo-Sao M. Una Salud. Educ Med Super [Internet]. Jun 2021 [citado 27 Jul 2025];35(2):e2890 . Disponível em: http://scielo.sld.cu/pdf/ems/v35n2/1561-2902-ems-35-02-e2890.pdf

2. Wildlife Conservation Society, The Rockefeller University. The Manhattan Principles [Internet]. New York: WCS; 2004 [citado 27 Jul 2025]. Disponível em: https://www.onehealthcommission.org/documents/filelibrary/library_references/reports/Manhattan_principles_2004_D578C2BB55C0C.pdf

3.Organización Mundial de la Salud, Centro de prensa. Una sola salud [Internet]. 23 out 2023 [citado 1 ago 2025]; Nota descritiva s/n [aprox. 5 p.] Disponível em: https://www.who.int/es/news-room/fact-sheets/detail/one-health

4. Leisher C,·Robinson N, Brown M,· Kujirakwinja D, Castro-Schmitz M, Wieland M, et al. Ranking the direct threats to biodiversity in sub‑Saharan Africa. Biodivers. Conserv [Internet]. 2022 [citado 27 Jul 2025];31:1329-43. Disponível em: https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s10531-022-02394-w.pdf

5. Belo-Fernandes J, Vareta D. Can nursing strengthen one health initiatives? One Health [Internet]. 2025 [citado 12 Dez 2025];21:101288. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12765120/pdf/main.pdf

6. De los Santos JAA, De Vera KL, Barcelo JMC, Musa SS. The role of nurses in One Health: a public health nursing perspective. Ann Trop Res [Internet]. Dez 2025 [citado 12 Dez 2025];47(2):354-65. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Shuaibu-Musa-8/publication/398705504_The_role_of_nurses_in_One_Health_public_health_nursing_perspective/links/6945887c7e61d05b5310b38f/The-role-of-nurses-in-One-Health-public-health-nursingperspective.pdf?_tp=eyJjb250ZXh0Ijp7ImZpcnN0UGFnZSI6InB1YmxpY2F0aW9uIiwicGFnZSI6InB1YmxpY2F0aW9uIn19

7. Şahin NE, Öner M. Nurse educators' knowledge and opinions about the “One Health” approach. Int Nurs Rev [Internet]. 2024 [citado 1 Ago 2025];71(4):1113-20. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11600494/pdf/INR-71-1113.pdf

 

 

Conflito de interesses

A autora declara que não há conflitos de interesses.

 

Contribuição dos autores

Ydalsys Naranjo-Hernández: conceituação, metodologia, recursos e redação do rascunho original.

 

Financiamento

Instituto Superior Politécnico de Bié, Cuito. Bié, Angola.

 

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